«Vocês sabem o que significa amar a humanidade? Significa apenas isto: estar satisfeito consigo mesmo. Quando alguém está satisfeito consigo mesmo, ama a humanidade. » Pirandello
Mostrar mensagens com a etiqueta POESIA. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta POESIA. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 6 de junho de 2013

AMADEU BAPTISTA - XXIX Prémio de Poesia, Cidade de Ourense.



BILLIE HOLIDAY: SOLO

Não tenho mais visões, não tenho obsessões,
sigo a trompete apenas, a ternura
é esse outro lado das coisas em que me perco
porque nada mais me chama e nada mais
revejo no lentíssimo torpor que pelas veias
senti outrora num azul imenso
que mais do que tocar-me me esvaía
no inferno do mundo e em seus ramais
de pura nostalgia, tristeza e desencanto.
Só ergo agora a voz para esquecer
e ter o olhar toldado para as coisas
que como grito lancinante escuto no silêncio
enquanto outras vozes me chamam,
outros indícios me vêm perturbar
quando pressinto a noite antíquissima
em que se esconde o sobressalto da serenidade do meu tempo. Nem já a sombra aguardo
ou o sentido destes brilhos espessos,
estas chamas que consomem o meu corpo
e a minha alma no mistério de tudo
e no liminar enigma que adensa nos outros
os sentidos, certa atenção venal, um desespero
que em fumos e rastros me pergunta
por esta vida que já não é minha
e no coração recebo como salvação e ruína.
Sigo a trompete, o subtil sinal da despedida.
Só ergo agora a voz para esquecer.


terça-feira, 24 de abril de 2012

Os Meus Livros

Os meus livros (que não sabem que existo) 
São uma parte de mim, como este rosto 
De têmporas e olhos já cinzentos 
Que em vão vou procurando nos espelhos 
E que percorro com a minha mão côncava. 
Não sem alguma lógica amargura 
Entendo que as palavras essenciais, 
As que me exprimem, estarão nessas folhas 
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo. 
Mais vale assim. As vozes desses mortos 
Dir-me-ão para sempre. 

Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda"

domingo, 15 de abril de 2012

Romance sonâmbulo - Federico Garcia Lorca


Romance sonâmbulo
Federico Garcia Lorca


Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco vai sobre o mar
e o cavalo na montanha.
Com a sombra pela cintura
ela sonha na varanda,
verde carne, tranças verdes,
com olhos de fria prata.
Verde que te quero verde.
Por sob a lua gitana,
as coisas estão mirando-a
e ela não pode mirá-las.

Verde que te quero verde.
Grandes estrelas de escarcha
nascem com o peixe de sombra
que rasga o caminho da alva.
A figueira raspa o vento
a lixá-lo com as ramas,
e o monte, gato selvagem,
eriça as piteiras ásperas.

Mas quem virá? E por onde?...
Ela fica na varanda,
verde carne, tranças verdes,
ela sonha na água amarga.
— Compadre, dou meu cavalo
em troca de sua casa,
o arreio por seu espelho,
a faca por sua manta.
Compadre, venho sangrando
desde as passagens de Cabra.
— Se pudesse, meu mocinho,
esse negócio eu fechava.
No entanto eu já não sou eu,
nem a casa é minha casa.
— Compadre, quero morrer
com decência, em minha cama.
De ferro, se for possível,
e com lençóis de cambraia.
Não vês que enorme ferida
vai de meu peito à garganta?
— Trezentas rosas morenas
traz tua camisa branca.
Ressuma teu sangue e cheira
em redor de tua faixa.
No entanto eu já não sou eu,
nem a casa é minha casa.
— Que eu possa subir ao menos
até às altas varandas.
Que eu possa subir! que o possa
até às verdes varandas.
As balaustradas da lua
por onde retumba a água.

Já sobem os dois compadres
até às altas varandas.
Deixando um rastro de sangue.
Deixando um rastro de lágrimas.
Tremiam pelos telhados
pequenos faróis de lata.
Mil pandeiros de cristal
feriam a madrugada.

Verde que te quero verde,
verde vento, verdes ramas.
Os dois compadres subiram.
O vasto vento deixava
na boca um gosto esquisito
de menta, fel e alfavaca.
— Que é dela, compadre, dize-me
que é de tua filha amarga?
— Quantas vezes te esperou!
Quantas vezes te esperara,
rosto fresco, negras tranças,
aqui na verde varanda!

Sobre a face da cisterna
balançava-se a gitana.
Verde carne, tranças verdes,
com olhos de fria prata.
Ponta gelada de lua
sustenta-a por cima da água.
A noite se fez tão íntima
como uma pequena praça.
Lá fora, à porta, golpeando,
guardas-civis na cachaça.
Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco vai sobre o mar.
E o cavalo na montanha.

quinta-feira, 29 de março de 2012

HOMENAGEM A MILLÔR FERNANDES (1923-2012)



Poeminha de Homenagem à Preguiça Universal

Que nada é impossível 
não é verdade;
 
todo o mundo faz nada
 
com facilidade
 

Poeminha da Insatisfação absoluta
O que me doí
É que quando está tudo acabado 
Pronto pronto 
Não há nada acabado 
Nem pronto pronto 
Pintou-me a casa toda 
Está tudo limpado 
O armário fechado 
A roupa arrumada 
Tudo belo, perfeito. 
E no mesmo instante 
Em que aperfeiçoamos a perfeição 
Uma lasca diminuta, ténue, microscópica, 
Não sei onde, 
Está começando 
Na pintura da casa 
E as traças, não sei onde, 
Estão batendo asas 
E a poeira, em geral, está caindo invisível, 
E a ferrugem está comendo não sei quê 
E não há jeito de parar. 

Millôr Fernandes, in "Pif-Paf"

quinta-feira, 8 de março de 2012

A MULHER INSPIRADORA

Mulher à Janela - Salvador DALI
 A Mulher InspiradoraMulher, não és só obra de Deus; 
os homens vão-te criando eternamente 
com a formosura dos seus corações, 
e os seus anseios 
vestiram de glória a tua juventude. 

Por ti o poeta vai tecendo 
a sua imaginária tela de oiro: 
o pintor dá às tuas formas, 
dia após dia, 
nova imortalidade. 

Para te adornar, para te vestir, 
para tornar-te mais preciosa, 
o mar traz as suas pérolas, 
a terra o seu oiro, 
sua flor os jardins do Verão. 

Mulher, és meio mulher, 
meio sonho. 

Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera" 
Tradução de Manuel Simões

domingo, 22 de janeiro de 2012

A JUVENTUDE

A juventude não é um período da vida,
É um estado de espírito, um efeito da vontade,
Uma qualidade da imaginação, uma intensidade emotiva,
Uma vitória da coragem sobre a timidez,
Um gosto da aventura sobre o amor do conforto.

Não se torna velho por ter diversos anos:
Fica-se velho porque abandonou-se o ideal.
Os anos enrugam a pele; renunciar ao seu ideal enruga a alma.
As preocupações, as dúvidas, os temores e os desesperos
São os inimigos que, lentamente fazem com que nos inclinemos para a terra
Tornando-nos poeira antes da morte.

Jovem é o que se surpreende e maravilha
Pede como uma criança insatisfeita: E depois?
Desafia os acontecimentos e encontra
A alegria no jogo da vida.

São também jovens os que têm fé
E velhos os que têm dúvidas
Jovens os que têm confiança em si próprios.

Jovens os que têm esperança. Velhos os que andam abatidos.
Continuará a ser jovem o que é receptivo
Receptivo à beleza, ao que é bom  e grande
Receptivo à mensagem da natureza, do homem e do infinito.

Se um dia, o vosso coração for mordido pelo pessimismo
E corroído pelo cinismo
Que Deus tenha piedade da tua alma.
 
Samuel Ullman (1840-1024)