«Vocês sabem o que significa amar a humanidade? Significa apenas isto: estar satisfeito consigo mesmo. Quando alguém está satisfeito consigo mesmo, ama a humanidade. » Pirandello

quinta-feira, 6 de junho de 2013

AMADEU BAPTISTA - XXIX Prémio de Poesia, Cidade de Ourense.



BILLIE HOLIDAY: SOLO

Não tenho mais visões, não tenho obsessões,
sigo a trompete apenas, a ternura
é esse outro lado das coisas em que me perco
porque nada mais me chama e nada mais
revejo no lentíssimo torpor que pelas veias
senti outrora num azul imenso
que mais do que tocar-me me esvaía
no inferno do mundo e em seus ramais
de pura nostalgia, tristeza e desencanto.
Só ergo agora a voz para esquecer
e ter o olhar toldado para as coisas
que como grito lancinante escuto no silêncio
enquanto outras vozes me chamam,
outros indícios me vêm perturbar
quando pressinto a noite antíquissima
em que se esconde o sobressalto da serenidade do meu tempo. Nem já a sombra aguardo
ou o sentido destes brilhos espessos,
estas chamas que consomem o meu corpo
e a minha alma no mistério de tudo
e no liminar enigma que adensa nos outros
os sentidos, certa atenção venal, um desespero
que em fumos e rastros me pergunta
por esta vida que já não é minha
e no coração recebo como salvação e ruína.
Sigo a trompete, o subtil sinal da despedida.
Só ergo agora a voz para esquecer.


sexta-feira, 31 de maio de 2013

LER É ESPERAR O MELHOR – Valter Hugo Mãe

«As bibliotecas são como aeroportos. São lugares de viagem. Entramos numa biblioteca como quem está a ponto de partir…./…Os livros são família directa dos aviões, dos tapetes-voadores ou dos pássaros. Os livros são da família das nuvens e, como elas, sabem tornar-se invisíveis enquanto pairam, como se entrassem para dentro do próprio ar, a ver o que existe dentro do ar que não se vê.
As bibliotecas são como festas ou batalhas contínuas e soam trombetas a cada instante e há sempre quem discuta com fervor o futuro, quem seja merecedor da nossa confiança e da nossa fé.

Já vi gente a sair de dentro dos livros. Gente atarefada até com mudar o mundo. Saem das palavras e vestem-se à pressa com roupas diversas e vão porta fora a explicar descobertas importantes. Muita gente que vive dentro do livro tem assuntos importantes a tratar. Precisamos de estar sempre atentos. Às vezes, compete-nos dar despacho. Sim, compete-nos pôr mãos ao trabalho».

terça-feira, 14 de maio de 2013

Eleanor Roosevelt

A propósito do filme, «Hyde Park on Hudson», que vi recentemente e me fez entrar no universo de Franklin Delano Roosevelt, um presidente americano com carisma, que vivia rodeado de amantes. A mulher era Eleanor Roosevelt.
Eleanor, era considerada feia, mas invejavam-lhe a fama e com certeza o humor e o bom senso.
Pode dizer-se que ela inaugurou o lugar de primeira-dama, pela intervenção social que teve à margem do marido. Nada do que fez será revolucionário nos tempos de hoje, mas na altura tomou atitudes que deixaram perplexo todo o Ocidente.
Cedo se envolveu em defesa dos direitos das pessoas mais pobres e dos negros, investigando as condições de vida nos bairros operários. Ela andava pelos bairros pobres e pelos guetos, não como alguém que faz uma inspecção, mas como alguém que não pode sentir-se bem quando há outros que passam fome.
Para Eleanor «uma política económica que não considere o bem-estar de todos não serve os propósitos de paz e o crescimento do bem-estar entre os povos de todas as nações». Uma das suas citações conhecidas é: «Ninguém pode fazer-te sentir inferior, a menos que tu deixes».
Eleanor tinha uma táctica: se algo não lhe agradasse e não fosse verdadeiramente importante, preferia ignorar. Uma táctica que desarmava as pessoas, que era pacifista, discreta e certeira. Assim agiu relativamente ao marido e à sogra, que considerava que nenhuma mulher era digna do seu filho.
Depois da morte do marido, foi convidada pelo Presidente Truman como membro da delegação americana nas Nações Unidas, para a elaboração da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
«Todos conhecemos pessoas que têm tanto medo de sofrer que se fecham nas suas conchas e, sem darem nada, também nada recebem, e ali ficam a mirrar até que a vida é apenas uma morte viva» Eleanor Roosevelt

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Hemingway & Gellhorn, filme de Philip Kaufman, com Clive Owen Nicole Kidman ....


Hemingway, Marty Gellhorn, o fotógrafo Robert Capa, o escritor John dos Passos e uns quantos e muitos, partem para Espanha, que se encontrava em situação de Guerra Civil, para fazer um filme contando e mostrando ao mundo as atrocidades que por lá estavam a acontecer, assim como contribuir para defender o governo eleito. De 1936 a 1939 morreram milhares, da forma mais brutal.


Hemingway acabou por casar com Marty, uma correspondente de guerra destemida! Enquanto Hemingway pretendia uma mulher que cuidasse de si, Marty a partir da Guerra Civil em Espanha estaria em todas as frentes de guerra, Guerra Russo-Finlandesa e a Segunda Guerra Sino-Japonesa….a sua vida tinha esse objectivo, apesar de amar o marido.
« O pior inimigo do amor, não é o ciúme é o tédio».
Sobre a Guerra Civil em Espanha, Hemingway escreveu «POR QUEM OS SINOS DOBRAM»!
«O homem pode ser derrotado, mas não destruído. Se ele puder levantar-se, ainda pode lutar».



terça-feira, 7 de maio de 2013

Georges Bernanos


QUEM É GEORGE BERNANOS?

Georges Bernanos (Paris, 20 de fevereiro de 1888 — Neuilly-sur-Seine, 5 de julho de 1948) foi um escritor e jornalista francês.



"O inferno é não se amar mais. Enquanto estamos vivos, podemos nos iludir, acreditar que amamos por nossas próprias forças, que amamos sem Deus. Mas nos assemelhamos aos loucos, que estendem os braços para o reflexo da lua na água..."
"Saber encontrar a alegria na alegria dos outros, é o segredo da felicidade".
"Fé: 24 horas de dúvida, menos de um minuto de Esperança"



domingo, 28 de abril de 2013

SINHÁ OLYMPIA A PRIMEIRA HIPPIE DO BRASIL, SEGUNDO RITA LEE


Olympia Angélica de Almeida Cotta, (Santa Rita Durão, distrito de Mariana, 1889 — Ouro Preto, 1976), mais conhecida como Sinhá Olímpia, foi o caso da mais célebre mendiga e andarilha que viveu em Ouro Preto, mulher que deliberou que aos 40 anos seria a rua o seu espaço vital. De cigarro na boca e cajado, ornamentada com chapéus exóticos de todo o mundo e com um magnifico amontoado barroco de roupas e acessórios, Olympia encantava turistas, estudantes, artistas, com histórias efabuladas que revelavam uma imaginação rara e uma educação refinada. Circulava pelas ruas contando estórias, pelas quais pedia algum dinheiro em troca. Foi considerada por Rita Lee a primeira hippie do Brasil e transformou-se em musa de Carlos Drumond de Andrade e de Milton Nascimento. 
Dizia-se noiva de Dom Pedro II, colaboradora de Tiradentes e amante de Chico Rei. OLympia foi capa da revista Time e foi fotografada por Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir
Filha de pai rico, Sinhá Olympia apaixonou-se na juventude por um farmacêutico pobre e foi proibida de viver o romance. Contam até que o rapaz, pouco tempo depois, faleceu de tristeza. Daí o motivo da sua loucura.


 

quarta-feira, 17 de abril de 2013

A Falsa Unidade!


Nenhum eu, nem mesmo o mais ingénuo, é uma unidade, antes sim um mundo extremamente multifacetado, um pequeno céu estrelado, um caos de formas, estádios e condições, heranças e possibilidades. O facto de cada um por si aspirar a considerar este caos uma unidade, e falar do seu eu como se  tratasse de uma manifestação simples, fixa e solidamente modelada, claramente delimitada - esse engano, que é inerente a qualquer ser humano (mesmo superior), parece ser uma necessidade, uma exigência da vida, como a respiração ou a alimentação. 
O erro assenta numa simples transferência. De corpo, todo o homem é uno; de alma, nunca. 

Hermann Hesse, in "O Lobo das Estepes"

domingo, 31 de março de 2013

Mawlānā Jalāl-ad-Dīn Muhammad Rūmī


Mawlānā Jalāl-ad-Dīn Muhammad Rūmī (مولانا جلال الدین محمد رومی), também conhecido como Mawlānā Jalāl-ad-Dīn Muhammad Balkhī (محمد بلخى), ou ainda apenas Rumi ou Mevlana, (30 de setembro de 1207 — 17 de setembro de 1273), foi poeta, jurista e teólogo sufi persa do século XIII.

«Cantar como os pássaros cantam, ou seja, sem se importar se alguém ouve».
«É pela ferida que entra a luz».
«Quando estás comigo, fico acordado toda a noite./ quando não estás, não consigo dormir./ louvado seja Deus por essas duas insónias/ e a diferença entre elas.

O Sufismo é conhecido como a corrente mística e contemplativa do Islão. 
De acordo com as grandes escolas de jurisprudência islâmica, o sufismo é considerado como um movimento herético, tendo sido, por isso, perseguido inúmeras vezes ao longo da história.
Dança sagrada  mevlevi, fundada por Rumi.


segunda-feira, 25 de março de 2013

QUASIMODO


E DE REPENTE A NOITE
 
 
Cada um está só sobre o coração da terra
 
trespassado por um raio de sol:
 
e de repente a noite

Da Acque e terre (1920-1929).



ED È SUBITO SERA

Ognuno sta solo sul cuor della terra 
trafitto da un raggio di sole: 
ed è subito sera.


REFÚGIO DE PÁSSAROS NOTURNOS
 
No alto um pinho torcido; 
está atento e escuta ao abismo
 
com o tronco dobrado como besta.
 
 
 
Refúgio de pássaros noturnos,
 
na hora mais alta ressoa
 
um veloz bater de asas.
 
 
 
Tem pois um ninho meu coração
 
suspenso na escuridão, uma voz;
 
está também, à escuta, da noite.




APOLLION
 
Os montes em escuro sono 
supinos jazem abatidos.
 
 
 
A hora nasce
 
da morte plena, Apollion;
 
sou ainda lerdo de membros
 
e o coração pesa desmemoriado.
 
 
 
Alongo minhas mãos
 
de chagas esquecidas,
 
amado destruidor.
 


JÁ VOA A MAGRA FLOR
 
Não saberei nada da minha vida,
escuro monótono sangue.
 
Não saberei a quem amava, a quem amo,
agora que aqui limitado, reduzido aos meus membros,
no corrompido vento de março
enumero os males dos dias decifrados.
 
Já voa a magra flor
dos ramos. E eu espero
a paciência de seu vôo irrevogável.

CARTA
 
 
Este silêncio detido nas ruas,
 
este vento indolente, que agora resvala
 
ao rés, entre as folhas mortas, ou remonta
 
às cores das bandeiras estrangeiras...
 
Talvez a ânsia de dizer-te uma palavra
 
antes que se feche outra vez o céu
sobre outro dia, talvez a inércia,
 
nosso mais vil mal. A vida
 
não está neste tremendo, escuro, latir
 
do coração, não é piedade, não é mais
 
que um jogo de sangue onde a morte
 
está
 em flor. Oh!, Minha doce gazela, 
te recordo aquele gerânio aceso
 
num muro crivado pela metralha.
 
Oh, nem sequer a morte agora consola
 
mais aos vivos, a morte por amor ?
 


Salvatore Quasimodo