«Vocês sabem o que significa amar a humanidade? Significa apenas isto: estar satisfeito consigo mesmo. Quando alguém está satisfeito consigo mesmo, ama a humanidade. » Pirandello

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

POEMA DE GABRIELA MISTRAL



Gabriela Mistral, pseudónimo de Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga (Vicuña, 7 de Abril de 1889 — Nova Iorque, 10 de Janeiro de 1957). Poetisa, educadora, diplomata e feminista chilena.
Foi agraciada com o Nobel de Literatura de 1945.


BIOGRAFIA AQUI


A IMENSA ALEGRIA DE SERVIR
Onde houver uma arvore para plantar,
planta-a tu;
onde houver um erro para corrigir,corrige-o tu;
onde houver uma tarefa que todos recusem,
aceita-a tu.
Sê quem tira
a pedra do caminho,
o ódio dos corações
e as dificuldades dos problemas.
Gabriela Mistral

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

CÂNTICO DOS CÂNTICOS


Cântico dos Cânticos, faz parte dos livros poéticos do Antigo Testamento. O seu autor teria sido Salomão, filho do rei David. A sua escrita é estimada por volta do ano 400 a.C, e constitui-se de uma colectânea de hinos nupciais. Por ser um poema escrito em uma linguagem considerada sensual, sua validade como texto bíblico já foi questionada ao longo dos tempos. O poema fala do amor entre o noivo e sua noiva.



Vem o amado - excerto

Ela - A Amada

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Tal como a macieira entre as árvores da floresta
é o meu amado entre os jovens
Anseio sentar-me à sua sombra,
que o seu fruto é doce na minha boca.
Leve-me para a sala do banquete.
e se erga diante de mim a sua bandeira de amor.
Sustentem-me com bolos de passas,
fortaleçam-me com maças
porque eu desfaleço de amor.
Por baixo da minha cabeça ele põe a mão esquerda
e abraça-me a sua mão direita.
Eu vos conjuro mulheres de Jerusalém
pelas gazelas ou pelas corças do monte:
não desperteis nem perturbeis
o meu amor, até que ele queira.


CÂNTICO DOS CÂNTICOS - CAPÍTULO II

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010


Encontro, algures na minha natureza, alguma coisa que me diz que não há nada no mundo que seja desprovido de sentido, e muito menos o sofrimento. Essa qualquer coisa, escondida no mais fundo de mim, como um tesouro num campo, é a humildade. É a última coisa que me resta, e a melhor (…). Ela veio-me de dentro de mim mesmo e sei que veio no bom momento. Não teria podido vir mais cedo nem mais tarde. Se alguém me tivesse falada dela, tê-la-ia rejeitado. Se ma tivessem oferecido, tê-la-ia rejeitado (…). É a única coisa que contém os elementos da vida, de uma vida nova (…). Entre todas as coisas ela é a mais estranha (…). É somente quando perdemos todas as coisas que sabemos que a possuímos.

(Oscar Wilde, in “De Profundis”)

sábado, 4 de dezembro de 2010

OCTÁVIO PAZ



Octávio Paz nasceu na Cidade do México em 1914. Cursou estudos de Direito na Universidade Nacional Autónoma do México e estudos especializados de literatura, no México, Estados Unidos, Paris e Japão.Fez parte da geração de Taller, que, mais que uma revista, foi um dos movimentos literários mais importantes do México. Em 1937 foi para a Espanha onde fez amizade com vários intelectuais republicanos. Em 1945 ingressou no serviço de diplomacia mexicano.
Residiu em Paris. Manteve contacto com personalidades importantes como Pablo Neruda, Xavier, Albert Camus, entre outros. Cultivou o surrealismo, a partir do seu encontro com André Breton, quando experimentou a escrita automática. A sua obra poética tem importância, não só como poesia, mas como reflexão sobre todo o âmbito da ocupação poética. A sua escrita, frequentemente, lida com oposições; paixão e razão, sociedade e indivíduo, trabalho e sentido: " A imagem poética é o encontro de realidades opostas". Em torno de sua obra encontram-se influências diversas como do marxismo, surrealismo, existencialismo, Budismo, Hinduísmo e do modernismo franco e anglo-americano. Muitos dos poemas de Paz são baseados em pinturas de Joan Miro, Marcel Duchamp, Antonio Tapies, Robert Rauschenberg e Roberto Matta.O seu interesse pelas culturas primitivas levou-o em 1951 à Índia, onde viveu durante anos, como embaixador. Renunciou em 1968, em sinal de protesto ao massacre na Praça das Três Culturas (Tlatelolco), quando o governo mexicano reprimiu à bala manifestação estudantil durante os Jogos Olímpicos. Em 1976 fundou a revista Plural e anos mais tarde a revista Vuelta. Publicou mais de vinte livros de poesia e inumeráveis ensaios de literatura, arte, cultura e política, desde Luna Silvestre, seu primeiro livro, de 1933. Foi um dos intelectuais mais importantes do México e um dos maiores poetas do mundo. Juntamente com Pablo Neruda e o extraordinário César Vallejo, Octavio Paz é um dos grandes poetas Latino Americanos cuja obra teve um forte impacto internacional. Suas antologias de poemas, em espanhol e em inglês, foram publicadas em 1988. Entre seus trabalhos poéticos de fim de século estão: “La Llama Doble”; “Amor y Erotismo”; “Vislumbre de la India”. Nos últimos anos, da sua vida, publicou intensamente, interveio (não para a alegria de todos) nos rumos de seu país, organizou suas obras completas, acrescentou-lhe, poemas, ensaios e memórias. Foi poeta, ensaísta e ardente antifascista nos anos anteriores e durante a Segunda Guerra Mundial, nessa época escreveu a colecção de poemas “Bajo tu Clara Sombra”. Morreu na capital mexicana em 1998.
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Movimento
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Se tu és a égua de âmbar
eu sou o caminho de sangue
Se tu és o primeiro nevão
eu sou quem acende a fogueira da madrugada
Se tu és a torre da noite
eu sou o cravo ardendo em tua fronte
Se tu és a maré matutina
eu sou o grito do primeiro pássaro
Se tu és a cesta de laranjas
eu sou o punhal de sol
Se tu és o altar de pedra
eu sou a mão sacrílega
Se tu és a terra deitada
eu sou a cana verde
Se tu és o salto do vento
eu sou o fogo oculto
Se tu és a boca da água
eu sou a boca do musgo
Se tu és o bosque das nuvens
eu sou o machado que as corta
Se tu és a cidade profunda
eu sou a chuva da consagração
Se tu és a montanha amarela
eu sou os braços vermelhos do líquen
Se tu és o sol que se levanta
eu sou o caminho de sangue
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Octavio Paz, in "Salamandra"
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Entre partir e ficar
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Entre partir e ficar hesita o dia,
enamorado de sua transparência.
A tarde circular é uma baía:
em seu quieto vai e vem se move o mundo.
Tudo é visível e tudo é ilusório,
tudo está perto e tudo é intocável.
Os papéis, o livro, o vaso, o lápis
repousam à sombra de seus nomes.
Pulsar do tempo que em minha têmpora repete
a mesma e insistente sílaba de sangue.
A luz faz do muro indiferente
Um espectral teatro de reflexos.
No centro de um olho me descubro;
Não me vê, não me vejo em seu olhar.
Dissipa-se o instante.
Sem mover-me,eu permaneço e parto:
sou uma pausa
FRASES
O homem é um ser que se criou a si próprio ao criar uma linguagem. Pela palavra, o homem é uma metáfora de si próprio. A palavra quando é criação desnuda.
A primeira virtude da poesia tanto para o poeta como para o leitor é a revelação do ser.
A consciência das palavras leva à consciência de si: a conhecer-se e a reconhecer-se.
A solidão é o fundo último da condição humana. O homem é o único ser que se sente só e que procura um outro.
O amor é uma tentativa de penetrar no íntimo de outro ser humano, mas só pode ter sucesso se a rendição for mútua.
Não é poeta aquele que não tenha sentido a tentação de destruir ou criar outra linguagem.
Nenhum povo acredita no seu Governo. Em resumo, os povos estão resignados. As massas humanas mais perigosas são aquelas em cujas veias foi injectado o veneno do medo... do medo da mudança.
O homem é uma criatura moral que envelhece, que morre e que não sabe para o que veio aqui "não nascemos livres: a liberdade é uma conquista - e mais: uma invenção."
"A palavra é a amante e o amigo do poeta, seu pai e sua mãe, seu deus e seu diabo, seu martelo e sua almofada. Também é seu inimigo: seu espelho".
"Cada poema é único. Em cada obra lateja, com maior ou menor intensidade, toda a poesia. Portanto, a leitura de um só poema nos revelará, com maior certeza do que qualquer investigação histórica ou filológica, o que é a poesia ".
"A palavra é o próprio homem. Somos feitos de palavras. Elas são nossa única realidade ou, pelo menos, o único testemunho de nossa realidade".

domingo, 28 de novembro de 2010

AMIGOS

Todos os dias deveríamos ler um
bom poema, ouvir uma linda canção,
contemplar um belo quadro
e dizer algumas bonitas palavras.
Pensar é mais interessante
que saber, mas é menos
interessante que olhar.
GOETHE



Amigos são como cultivadores de ostras. Tem um oceano oculto no coração, onde guardam as pessoas queridas. E com as afinidades, as conversas, os sorrisos, a sabedoria de ler nas entrelinhas, lendo olhares e silêncios, vão tecendo pérolas. O coração é o cofre da alma, onde as pérolas são guardadas no mar do carinho e do afecto sincero. E no meu coração já tem essas pérolas formadas...
Helen Drumond

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

O CORTEJO INGÉNUO DOS NOSSOS SONHOS - MALRAUX

Não desenhamos uma imagem ilusória de nós próprios, mas inúmeras imagens, das quais muitas são apenas esboços, e que o espírito repele com embaraço, mesmo quando porventura haja colaborado, ele próprio, na sua formação. Qualquer livro, qualquer conversa podem fazê-las surgir; renovadas por cada paixão nova, mudam com os nossos mais recentes prazeres e os nossos últimos desgostos. São, contudo, bastante fortes para deixarem, em nós, lembranças secretas que crescem até formarem um dos elementos mais importantes da nossa vida: a consciência que temos de nós mesmos tão velada, tão oposta a toda a razão, que o próprio esforço do espírito para a captar a faz anular-se.
Nada de definido, nem que nos permita definir-nos; uma espécie de potência latente... como se houvesse apenas faltado a ocasião para cumprirmos no mundo real os gestos dos nossos sonhos, conservamos a impressão confusa, não de os ter realizado, mas de termos sido capazes de os realizar. Sentimos esta potência em nós como o atleta conhece a sua força sem pensar nela. Actores miseráveis que já não querem deixar os seus papéis gloriosos, somos, para nós mesmos, seres nos quais dorme, amalgamado, o cortejo ingénuo das possibilidades das nossas acções e dos nossos sonhos.


André Malraux, in 'A Tentação do Ocidente'

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

LEMBRAR LUTTER KING

Martin McLuther King , Jr. (1929 —1968) pastor protestante e activista político. Tornou-se um dos mais importantes líderes do activismo pelos direitos civis nos Estados Unidos e no mundo, através de uma campanha de não-violência e de amor para com o próximo. Foi a pessoa mais jovem a receber o Prémio Nobel da Paz em 1964, pouco antes de seu assassinato. O seu discurso mais famoso e lembrado é "Eu Tenho Um Sonho".
Martin Luther King era odiado por muitos segregacionistas do sul dos Estados Unidos, o que culminou no seu assassinato no dia 4 de Abril de 1968, momentos antes de uma marcha, num hotel da cidade de Memphis. Em 1986 foi estabelecido um feriado nacional nos Estados Unidos para homenagear Martin Luther King, o chamado Dia de Martin Luther King.


MAIS SOBRE LUTHER KING AQUI

«I HAVE A DREAM»
"Eu estou contente em unir-me com vocês no dia que entrará para a história como a maior demonstração pela liberdade na história de nossa nação. Cem anos atrás, um grande americano, na qual estamos sob sua simbólica sombra, assinou a Proclamação de Emancipação. Esse importante decreto veio como um grande farol de esperança para milhões de escravos negros que tinham murchado nas chamas da injustiça. Ele veio como uma alvorada para terminar a longa noite de seus cativeiros. Mas cem anos depois, o Negro ainda não é livre. Cem anos depois, a vida do Negro ainda é tristemente inválida pelas algemas da segregação e as cadeias de discriminação. Cem anos depois, o Negro vive em uma ilha só de pobreza no meio de um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos depois, o Negro ainda adoece nos cantos da sociedade americana e se encontram exilados em sua própria terra. Assim, nós viemos aqui hoje para dramatizar sua vergonhosa condição. De certo modo, nós viemos à capital de nossa nação para trocar um cheque. Quando os arquitectos de nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e a Declaração da Independência, eles estavam assinando uma nota promissória para a qual todo americano seria seu herdeiro. Esta nota era uma promessa que todos os homens, sim, os homens negros, como também os homens brancos, teriam garantidos os direitos inalienáveis de vida, liberdade e a busca da felicidade. Hoje é óbvio que aquela América não apresentou esta nota promissória. Em vez de honrar esta obrigação sagrada, a América deu para o povo negro um cheque sem fundo, um cheque que voltou marcado com "fundos insuficientes".Mas nós nos recusamos a acreditar que o banco da justiça é falível. Nós nos recusamos a acreditar que há capitais insuficientes de oportunidade nesta nação. Assim nós viemos trocar este cheque, um cheque que nos dará o direito de reclamar as riquezas de liberdade e a segurança da justiça. Nós também viemos para recordar à América dessa cruel urgência. Este não é o momento para descansar no luxo refrescante ou tomar o remédio tranquilizante do gradualismo. Agora é o tempo para transformar em realidade as promessas de democracia. Agora é o tempo para subir do vale das trevas da segregação ao caminho iluminado pelo sol da justiça racial. Agora é o tempo para erguer nossa nação das areias movediças da injustiça racial para a pedra sólida da fraternidade. Agora é o tempo para fazer da justiça uma realidade para todos os filhos de Deus. Seria fatal para a nação negligenciar a urgência desse momento. Este verão sufocante do legítimo descontentamento dos Negros não passará até termos um renovador Outono de liberdade e igualdade. Este ano de 1963 não é um fim, mas um começo. Esses que esperam que o Negro agora estará contente, terão um violento despertar se a nação votar aos negócios de sempre. Mas há algo que eu tenho que dizer ao meu povo que se dirige ao portal que conduz ao palácio da justiça. No processo de conquistar nosso legítimo direito, nós não devemos ser culpados de acções de injustiças. Não vamos satisfazer nossa sede de liberdade bebendo da xícara da amargura e do ódio. Nós sempre temos que conduzir nossa luta num alto nível de dignidade e disciplina. Nós não devemos permitir que nosso criativo protesto se degenere em violência física. Novamente e novamente nós temos que subir às majestosas alturas da reunião da força física com a força de alma. Nossa nova e maravilhosa combatividade mostrou à comunidade negra que não devemos ter uma desconfiança para com todas as pessoas brancas, para muitos de nossos irmãos brancos, como comprovamos pela presença deles aqui hoje, vieram entender que o destino deles é amarrado ao nosso destino. Eles vieram perceber que a liberdade deles é ligada indissoluvelmente à nossa liberdade. Nós não podemos caminhar só. E como nós caminhamos, nós temos que fazer a promessa que nós sempre marcharemos à frente. Nós não podemos retroceder. Há esses que estão perguntando para os devotos dos direitos civis, "Quando vocês estarão satisfeitos?"Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto o Negro for vítima dos horrores indizíveis da brutalidade policial. Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto nossos corpos, pesados com a fadiga da viagem, não poderem ter hospedagem nos motéis das estradas e os hotéis das cidades. Nós não estaremos satisfeitos enquanto um Negro não puder votar no Mississipi e um Negro em Nova Iorque acreditar que ele não tem motivo para votar. Não, não, nós não estamos satisfeitos e nós não estaremos satisfeitos até que a justiça e a rectidão rolem abaixo como águas de uma poderosa correnteza. Eu não esqueci que alguns de você vieram até aqui após grandes testes e sofrimentos. Alguns de vocês vieram recentemente de celas estreitas das prisões. Alguns de vocês vieram de áreas onde a sua busca pela liberdade lhe deixaram marcas pelas tempestades das perseguições e pelos ventos de brutalidade policial. Vocês são os veteranos do sofrimento. Continuem trabalhando com a fé que o sofrimento imerecido é redentor. Voltem para o Mississippi, voltem para o Alabama, voltem para a Carolina do Sul, voltem para a Geórgia, voltem para Louisiana, voltem para as ruas sujas e guetos de nossas cidades do norte, sabendo que de alguma maneira esta situação pode e será mudada. Não se deixe cair no vale de desespero. Eu digo hoje, meus amigos, que embora nós enfrentemos as dificuldades de hoje e amanhã. Eu ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano. Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença - nós celebraremos estas verdades e elas serão claras para todos, que os homens são criados iguais. Eu tenho um sonho que um dia nas colinas vermelhas da Geórgia os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos descendentes dos donos de escravos poderão se sentar junto à mesa da fraternidade. Eu tenho um sonho que um dia, até mesmo no estado de Mississippi, um estado que transpira com o calor da injustiça, que transpira com o calor de opressão, será transformado em um oásis de liberdade e justiça. Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu carácter. Eu tenho um sonho hoje! Eu tenho um sonho que um dia, no Alabama, com seus racistas malignos, com seu governador que tem os lábios gotejando palavras de intervenção e negação; nesse justo dia no Alabama meninos negros e meninas negras poderão unir as mãos com meninos brancos e meninas brancas como irmãs e irmãos. Eu tenho um sonho hoje! Eu tenho um sonho que um dia todo vale será exaltado, e todas as colinas e montanhas virão abaixo, os lugares ásperos serão aplainados e os lugares tortuosos serão endireitados e a glória do Senhor será revelada e toda a carne estará junta. Esta é nossa esperança. Esta é a fé com que regressarei para o Sul. Com esta fé nós poderemos cortar da montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé nós poderemos transformar as discórdias estridentes de nossa nação em uma bela sinfonia de fraternidade. Com esta fé nós poderemos trabalhar juntos, rezar juntos, lutar juntos, para ir encarcerar juntos, defender a liberdade juntos, e quem sabe nós seremos um dia livres.
Este será o dia, este será o dia quando todas as crianças de Deus poderão cantar com um novo significado."Meu país, doce terra de liberdade, eu te canto. Terra onde meus pais morreram, terra do orgulho dos peregrinos. De qualquer lado da montanha, ouço o sino da liberdade!
"E se a América é uma grande nação, isto tem que se tornar verdadeiro. E assim ouvirei o sino da liberdade no extraordinário topo da montanha de New Hampshire.
Ouvirei o sino da liberdade nas poderosas montanhas poderosas de Nova York.
Ouvirei o sino da liberdade nos engrandecidos Alleghenies da Pennsylvania.
Ouvirei o sino da liberdade nas montanhas cobertas de neve Rockies do Colorado.
Ouvirei o sino da liberdade nas ladeiras curvas da Califórnia.
Mas não é só isso.
Ouvirei o sino da liberdade na Montanha de Pedra da Geórgia.
Ouvirei o sino da liberdade na Montanha de Vigilância do Tennessee.
Ouvirei o sino da liberdade em todas as colinas do Mississipi.
Em todas as montanhas, ouvi o sino da liberdade.
E quando isto acontecer, quando nós permitirmos o sino da liberdade soar, quando nós deixarmos ele soar em toda moradia e todo vilarejo, em todo estado e em toda cidade, nós poderemos acelerar aquele dia quando todas as crianças de Deus, homens pretos e homens brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão unir mãos e cantar nas palavras do velho spiritual negro:
"Livre afinal, livre afinal.
Agradeço ao Deus todo-poderoso, nós somos livres afinal."

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

ROMANTISMO – AS PRIMEIRAS FÉRIAS A DOIS – DILEMAS


Agosto, enfim está a acabar! Que mês de dilemas e sem qualquer romantismo! Agosto para onde ir? Como fugir às filas e filas para a praia e, na praia, com gente por todo o lado, onde está o romantismo? Depois há outras questões. As manhãs são para ficar a dormir? As noites são sempre para sair? Para ir para a praia de manhã não pode haver copos à noite! Um pode gostar de beber álcool o outro não, um está fresquinho no dia seguinte, enquanto o outro está com uma daquelas más disposições!...
Não vão para um hotel, o dinheiro que não é nada romântico, também é de considerar! Vão para um apartamento de um amigo. Quem cozinha? Vai ser a meias? Quem faz as compras? Vão sempre comer fora ou compram fora para comer dentro? Nas esplanadas conversam? E os livros que levaram quando os poderão ler? Será que os dois gostam de passear pelas redondezas ou um considera isso muito cansativo?
O melhor será ficar na cidade, muito mais calma nestas ocasiões, só que qual é o romantismo de ficar na cidade?
Há também a hipótese do Portugal profundo, mas tem que ser muito profundo, se é a terra de algum é preciso visitar a família, ir ver a procissão, assistir ao espectáculo do rei do CD pirata.
E se forem para o estrangeiro visitar uma cidade? É a primeira vez que estão a fazer férias, não se conhecem suficientemente numa vida em comum, pode acontecer, ele ou ela, gostar de ver os museus todos e o outro preferir ficar na esplanada a sentir o pulsar da cidade. No primeiro dia há uma cedência, no segundo tem que haver um meio-termo ou cada um vai para o seu lado e lá vai o romantismo?
ISTO DO ROMANTISMO É UMA COISA COMPLICADA, MAS PORQUE É QUE TUDO ESTÁ CONTRA O ROMANTISMO?

domingo, 22 de agosto de 2010

No Matter What Boyzone



Não importa o quê
Não importa o quê eles nos digam,
Não importa o quê eles façam,
Não importa o que eles nos ensinem,
O que nós acreditamos é verdadeiro.
Não importa do que eles nos chamem,
De qualquer forma que eles ataquem,
Não importa onde eles nos levem,
Nós encontraremos nosso próprio caminho de volta.
.../...

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

GENTLEMAN WILL WALK BUT NEVER RUN

Todas nós mulheres, gostamos de um homem que seja cavalheiro! Alguém que saiba conversar com conteúdo e elegância. Sobre tudo ou então que admita, que não sabe sobre determinado tema, sem com isso parecer um ignorante. Que tenha bom aspecto e saiba vestir-se para ocasiões distintas. Que saiba dar a ideia de ser pessoa de confiança. Que abra a porta para a mulher entrar e se levante para a cumprimentar, que caminhe do lado de fora do passeio para proteger a mulher, que dispa o casaco para a proteger da chuva ou do frio, insista em pagar, embora depois consinta em que seja ela a pagar, para não parecer machista, abra primeiro a porta do carro para ela entrar…etc…etc… Mas estes gestos que de início são esfuziantes e naturais, começam a ser doseados, ser cavalheiro cansa! E um homem, que quando lhe convém sabe ser cavalheiro, muito depressa se pode transformar num distraído!


quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A HIPOCRISIA DO AMOR PRÓPRIO

Velasquez - Venus

A natureza do amor-próprio e deste eu humano é de só se amar a si e de só se considerar a si. Mas que há-de fazer? Não saberia impedir que este objecto que ama esteja cheio de defeitos e de misérias: quer ser grande e vê-se pequeno; quer ser feliz e vê-se miserável; quer ser perfeito - vê-se cheio de imperfeições; quer ser objecto do amor e da estima dos homens e vê que os seus defeitos só merecem a sua aversão e o seu desprezo. Este embaraço em que se encontra produz nele a mais injusta e a mais criminosa paixão que é possível imaginar; porque concebe um ódio mortal contra esta verdade que o repreende, e que o convence dos seus defeitos. Ele desejaria aniquilá-la, e não a podendo destruir em si mesma, destrói-a, tanto quanto pode, no seu conhecimento e no dos outros, isto é, põe todos os cuidados em encobrir os seus defeitos, aos outros e a si mesmo, e não suporta que lhos façam ver, nem que lhos vejam.
É sem dúvida um mal-estar cheio de defeitos; mas é ainda um mal muito maior estar cheio e não os querer reconhecer, visto que é acrescentar-lhe ainda o de uma ilusão voluntária. Não queremos que os outros nos enganem; não achamos justo que queiram ser mais estimados por nós do que o que merecem: não é portanto justo também que os enganemos e queiramos que nos estimem mais do que merecemos. Assim, quando só descobrem imperfeições e vícios que nós com efeito temos, é visível que não nos prejudicam, visto que não são eles a causa dessas imperfeições, e que nos fazem um benefício, por nos ajudarem a libertar-nos de um mal, que é a ignorância das imperfeições. Não nos devemos zangar porque as conheçam, e porque nos menosprezem: sendo justo que nos conheçam pelo que somos, e que nos desprezem se somos desprezíveis. Eis os sentimentos que nasceriam de um coração cheio de rectidão e de justiça. Que devemos portanto dizer do nosso, quando nele encontrarmos uma disposição completamente contrária? Pois não será verdade que odiamos a verdade e aqueles que no-la dizem, e que gostamos que se enganem com vantagem para nós e que queremos ser estimados por eles por sermos diferentes daquilo que com efeito somos? (...) A vida humana é apenas uma ilusão perpétua; o que fazemos é enganar-nos e iludir-nos mutuamente. Ninguém fala de nós na nossa presença como na nossa ausência. A união que existe entre os homens é fundada sobre este mútuo embuste; e poucas amizades subsistiriam se cada um soubesse o que o seu amigo diz dele quando não está presente, ainda que ele fale então sinceramente e sem paixão. O homem é apenas disfarce, engano e hipocrisia em si mesmo e para com os outros. Não quer que lhe digam a verdade e evita dizê-la aos outros; e todas estas disposições tão afastadas da justiça e da razão têm uma raiz natural no seu coração.


Blaise Pascal, in "Pensamentos"

domingo, 15 de agosto de 2010

MULHERES DE ROSTO (DES)COBERTO

BURQA – NIQAB – HIJAB – CHADOR
No Ocidente, por todo o lado é frequente ver estas mulheres. Se um véu na cabeça é tolerável, ficarem completamente com o rosto oculto é sinistro e incomoda muita gente, porque isto representa um atraso civilizacional.



EM DEFESA DA DIGNIDADE, PARLAMENTOS EUROPEUS REJEITAM O USO DO VÉU PORQUE O CONSIDERAM UM ATENTADO À LIBERDADE E À IGUALDADE DAS MULHERES.

França, é proibido a alegação é a necessidade de salvaguardar os valores laicos da dignidade dos cidadãos
Inglaterra, a proposta foi criticada, por ser considerada como uma imposição contrária à tradição britânica de «uma sociedade tolerante e onde impera o respeito mútuo».
Bélgica foi o primeiro país a proibir, por dificuldade de identificação.
Espanha lei á espera de ratificação, mas em Barcelona já existe a proibição.
Holanda à espera de aprovação, o mesmo caso em Itália que prevê dois anos de prisão e multa de dois mil euros.
Kosovo, apesar de ser de maioria muçulmana aprovou a proibição.
Turquia, alegando ataque às leis seculares de modernização, é contra.
Alemanha, a constituição garante o direito de as pessoas expressarem a sua religiosidade de acordo com as suas tradições, mas em alguns estados, que se regem por legislação própria proíbem.
Síria, baniu o véu nas universidades, por ameaça à identidade secular do país.

terça-feira, 27 de julho de 2010

POESIA DE JORGE LUIS BORGES

SONETO DO VINHO
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Tradução de Anderson Braga Horta
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Em que reino, em que tempo e sob que silenciosa
Conjunção planetária, em que secreto dia
Que o mármore não guardou, surgiu a generosa
E única inspiração de inventar a alegria?
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Ah! com Outonos de ouro a inventaram.
O vinhoVermelho e ardente flui banhando as gerações
Como o rio do tempo, e em seu árduo caminho
Seu cântico nos doa, e seu fogo e seus leões.
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Na jubilosa noite e na jornada adversa
Ele exalta a alegria ou suaviza o espanto.
E o ditirambo que hoje, efusivo, lhe canto
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Disse-o o árabe uma vez, cantou-o outrora o persa.
Vinho, ensina-me a ver a minha própria história
Como se fora já cinza e pó na memória.
BIOGRAFIA DE JORGE LUÍS BORGES: aqui

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LABIRINTOS, ESPELHOS, TIGRES: TEMAS RECORRENTES NA OBRA DE BORGES
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A CHUVA
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A tarde bruscamente se aclarou,
porque já cai a chuva minuciosa.
Cai e caiu. A chuva é só uma coisa
que o passado por certo frequentou.
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Quem a escuta cair já recobrou
o tempo em que a fortuna venturosa
uma flor lhe mostrou chamada rosa
e a cor bizarra do que cor tomou.
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Esta chuva que treme sobre os vidros
alegrará nuns arrabaldes idos
as negras uvas de uma parra em horto
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que não existe mais. A humedecida
tarde me traz a voz, a voz querida
de meu pai que retorna e não é morto.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

REFLEXÃO


Tenho seis regras que me ensinaram tudo o que sei: O quê?, Porquê?, Quando?, Como?, Onde?, e Quem?

Rudyard Kipling - (30 de Dezembro de 1865, em Bombaim, Índia - 18 de Janeiro de 1936); escritor britânico, nascido na Índia. Nobel da Literatura 1907.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O MUNDO MUDOU MUITO...

O Mundo mudou muito, se mudou! Numa lista fornecida pela «Forbes» das 14 mulheres que construíram uma fortuna milionária em todo o mundo, sete delas são chinesas, sendo a mulher mais rica do Mundo Wu Yajun, como directora executiva de uma empresa imobiliária.
Segue-se:
Rosalia Mera – Espanha – Empresária do Ramo Têstil e Saúde – Dona da Zara
Elena Baturina – Rússia – Gestora (plásticos, construção civil e materiais de construção
Doris Fisher – EUA – Fundadora da GAP (roupa)
Xiu Li Hawken – Reino Unido – Gestora (Commercial Holdings)
Oprah Winfrey – EUA – Produtora e Canal próprio de televisão
Giuliana Benetton – Itália – Gestora (Roupa, Restaurantes, portagens, aeroportos)
Chu Lam Yiu – China – Gestora (Sabores e fragrâncias, aplicadas no tabaco, detergentes, produtos alimentares)
Zhang Xin – China – Gestora – Imobiliária
Van Cheung – China – Gestora (reciclagem de papel)

CLARO QUE AS MULHERES AINDA REPRESENTAM SÓ 2% DOS MAIS RICOS.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

GABRIELA MISTRAL


Poetisa chilena (7/4/1889-10/1/1957). Foi a primeira escritora latino-americana a receber o Prémio Nobel de Literatura, em 1945. Sua poesia única e repleta de imagens singulares não mostra influências do modernismo nem das vanguardas. Descendente de espanhóis, bascos e índios, Lucila Godoy Alcayaga nasceu em Vicuña, uma vila do norte do Chile.
Com apenas 15 anos começou a dar aulas. Seu noivo cometeu suicídio em 1907, fato que marcou a obra e vida de Gabriela Mistral, nunca se casou e se dedicou somente ao trabalho. Venceu um concurso literário chileno em 1914 com Sonetos de la Muerte, assinados com o pseudónimo Gabriela Mistral, formado a partir do nome de dois poetas que admirava o italiano Gabriele D’Annunzio e o francês Frédéric Mistral.
Seu primeiro livro de poesias, Desolación (1922), inclui o poema Dolor, no qual fala da perda do amado. O sentimento de maternidade frustrada aparece nos trabalhos seguintes, Ternura (1924) e Tala (1938). Colaborou na reforma educacional do México e do Chile. Representou seu país como consulesa em Nápoles, Madrid, Lisboa e Rio de Janeiro. Em 1954 publica Lagar.
Leccionou literatura espanhola na Universidade de Colômbia. Morreu em Hempstead, no estado de Nova York.

Há uma agonia de algas,
há uma surdez de areias
um solapamento de águas
e um quebrantamento de ervas.

Sob a noite estamos nós,
as criaturas completas:
os muros brancos e fieis,

o pinhal cheio de essencia,
uma pobre fonte impávida
e uma vidraça em vigília.

Olhando umas para as outras
de vergonha estyremecemos
por nossos joelhos intactos
e nossas frontes perfeitas.

Cai um corpo maternal
roto em ombros e em quadris
Cai numa tela, vencido,
numas tardas cabeleiras.

Ouvem-na tombar seus filhos
como à duna a própria areia,
em filamentos obliquos
atravessando a soleira.

Ninguem susta o desperdício
e nossas mãos quietas,
enquanto baixam seus fios
em um enxame de abelhas

Caem assim extenuados
seus gestos já sem governo
e seu braço se abandona
e sua cor não se lembra

E logo estará sem nome
a mãe que aqui se apresenta
e já não lhe convirão
perfil, nem casta, nem terra.

Entretanto ontem foi uma
que se podia reter
dizendo o nome verídico
de condição verdadeira.

Da fronte aos pés era única
tal o compassso ou a estrela.
Agora já se reparte
por dois teares, duas teias.

Entre margens sugestivas
vacila assim como as ébrias
e agora sobe embebida
de outro ar e de outra ribeira.

Ouve-se um duelo de margens
pela mãe que se nos dera,
de um lado a margem que a arrasta,
de outro a margem que a persegue.

Chega ao tendal dolorido
de seus filhos pela aldeia,
o transe de seu conflito
como de um rio no delta.

AUSÊNCIA

Se vai de ti meu corpo gota a gota.
Se vai minha cara no óleo surdo;
Se vão minhas mãos em mercúrio solto;
Se vão meus pés em dois tempos de pó.
.
Se vai minha voz, que te fazia sino
fechada a quanto não somos nós.
Se vão meus gestos, que se enovelam,
em lanças, diante de teus olhos.
.
E se te vai o olhar que entrega,
quando te olha, o zimbro e o olmo.
Vou-me de ti com teus mesmos alentos:
como humidade de teu corpo evaporo.
.
Vou-me de ti com vigília e com sono,
e em tua recordação mais fiel já me apago.
e em tua memória volto como esses
que não nasceram nem em planos nem em bosques
.
Sangue seria e me fosse nas palmas
de teu trabalho e em tua boca de sumo.
Tua entranha fosse e seria queimada
em marchas tuas que nunca mais ouço,
e em tua paixão que retumba na noite,
como demência de mares sós.
Se nos vai tudo, se nos vai tudo!

Floco de lã de minha carne,
que em minha entranha eu teci,
floco de lã friorento,
dorme apegado a mim!
A perdiz dorme no trevo
escutando-o pulsar:
não te perturbem meus alentos,
dorme apegado a mim!
Ervazinha assustada
assombrada de viver,
não te soltes de meu peito:
dorme apegado a mim!
Eu que tudo o hei perdido
agora tremo de dormir.
Não escorregues de meu braço:
dorme apegado a mim!

Somos culpados
de muitos erros e faltas
porém nosso pior crime
é o abandono das crianças
negando-lhes a fonte
da vida
Muitas das coisas
de que necessitamos
podem esperar.
A criança não pode
Agora é o momento em que
seus ossos estão se formando
seu sangue também o está
e seus sentidos
estão se desenvolvendo
A ela não podemos responder “amanhã”
Seu nome é hoje.


DAME LA MANO

Dame la mano y danzaremos;
dame la mano y me amarás.
Como una sola flor seremos,
como una flor, y nada más...

El mismo verso cantaremos,
al mismo paso bailarás.
Como una espiga ondularemos,
como una espiga, y nada más.

Te llamas Rosa y yo Esperanza;
pero tu nombre olvidarás,
porque seremos una danza
en la colina y nada más...

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O MELHOR É SER POSITIVISTA...


Dona Cacilda é uma senhora de 92 anos, miúda, é tão elegante, que todos dias às 08 da manhã ela já está toda vestida, bem penteada e discretamente pintada, apesar de sua pouca visão. E hoje ela se mudou para uma casa de repouso: o marido, com quem ela viveu 70 anos, morreu recentemente, e não havia outra solução. Depois de esperar pacientemente duas horas na sala de visitas, ela ainda deu um lindo sorriso quando a empregada veio dizer que seu quarto estava pronto. A empregada foi descrevendo o quarto, enquanto subiam no elevador: quartinho minúsculo, com cortinas floridas na janela. A senhora interrompeu com o entusiasmo de uma garotinha.
- Ah, eu adoro essas cortinas...
- Dona Cacilda, a senhora ainda nem viu seu quarto... Espere um pouco...
- Isto não tem nada a ver, respondeu, felicidade é algo que você decide por princípio. Se eu vou gostar ou não do meu quarto, não depende de como a mobília vai estar arrumada... Vai depender de como eu preparo minha expectativa. E eu já decidi que vou adorar. É uma decisão que tomo todos os dias quando acordo.Sabe, eu posso passar o dia inteiro na cama, contando as dores que tenho em certas partes do meu corpo que não funcionam bem...Ou posso levantar da cama agradecendo pelas outras partes que ainda me obedecem.
- Simples assim?
- Nem tanto; isto é para quem tem auto controle e exigiu de mim um certo treino, mas é bom saber que ainda posso dirigir os meus pensamentos.
Calmamente ela continuou:- Cada dia é um presente, e enquanto meus olhos se abrirem, vou focalizar o novo dia, mas também as lembranças alegres que eu guardei para esta época da vida. A velhice é como uma conta bancária: você só retira aquilo que guardou. Então, o meu conselho é depositar um monte de alegrias e felicidades na sua Conta de Lembranças. E, obrigada por este seu depósito no meu Banco de lembranças. Como você vê, eu ainda continuo depositando e acredito que, por mais complexa que seja a vida, sábio é quem a simplifica.
(Desconheço o autor)

segunda-feira, 5 de julho de 2010

POESIA DE KONSTANTINOS-KAVAFIS


A cidade

Dizes: “Vou para outra terra, vou para outro mar.
Noutro lugar, melhor cidade há­‑de haver certamente.
Será malogro, está escrito, tudo o que aqui tente
E - como morto - o coração sepultado aqui me jaz.
Por quanto tempo há­‑de ficar minh'alma em tão podre paz?
Pra todo o lado olhei, em todo o lado vi
Ruínas negras desta minha vida aqui,
Que tantos anos eu gastei a estragar, a dissipar."
.
Novo lugar não vais achar, nem achar novos mares.
Vai­‑te seguir esta cidade. Ruas vais percorrer,
serão as mesmas, e nos mesmos bairros hás­‑de viver,
nas mesmas casas ficará de neve o teu cabelo.
Hás­‑de ir ter sempre ao mesmo sítio, sem qualquer apelo.
Para outro lugar não há navio ou caminho
e estragares a vida tu neste cantinho
é pois igual a nesse largo mundo a dissipares.


Quanto puderes

Mesmo que não possas fazer a vida como a queres,
isto ao menos tenta
quanto puderes: não a desbarates
nos muitos contactos do mundo,
na agitação e nas conversas.
.
Não a desbarates arrastando­‑a,
e mudando­‑a e expondo­‑a
ao quotidiano absurdo
das relações e das companhias
até se tornar um estranho importuno.
.

Che fece ... Il gran rifiuto


Para algumas pessoas há­‑de chegar o instante
em que têm que dizer o grande Não ou o grande Sim.
Nessa altura se mostra qual delas tem dentro de si
pronto o Sim, qual o diz e logo segue adiante
.
do seu valor segura, e da sua certeza.
Quem nega não renega. E à pergunta, repetida,
"Não" diria. Porém durante toda a vida
Aquele "Não" tão certo lhe há­‑de ter a vida presa.


BIOGRAFIA DO POETA---AQUI

quinta-feira, 1 de julho de 2010

MEDITAÇÃO SOBRE PODERES



Rubricavam os decretos, as folhas tristes
sobre a mesa dos seus poderes efémeros.
Queriam ser reis, czares, tantas coisas,
e rodeavam-se de pequenos corvos,
palradores e reverentes, dos que repetem:
és grande, ninguém te iguala, ninguém.
Repartiam entre si os tesouros e as dádivas,
murmurando forjadas confidências,
não amando ninguém, nada respeitando.
Encantavam-se com o eco liquefeito
das suas vozes comandando, decretando.
Banqueteavam-se com a pequenez de tudo
quanto julgavam ser grande, com os quadros,
com o fulgor novo-rico das vénias e dos protocolos.
Vinha a morte e mostrava-lhes como tudo é fugaz quando,
humanamente, se está de passagem,
corpo em trânsito para lado nenhum.
Acabaram sempre a chorar sobre a miséria
dos seus títulos afundados na terra lamacenta.
José Jorge Letria, in "Quem com Ferro Ama"

quinta-feira, 24 de junho de 2010

JOSÉ SARAMAGO

"Cai a chuva, o vento desmancha as árvores desfolhadas, e dos tempos passados vem uma imagem, a de um homem alto e magro, velho, agora que está mais perto, por um carreiro alagado. Traz um cajado ao ombro, um capote enlameado e antigo, e por ele escorrem todas as águas do céu. À frente caminham os porcos, de cabeça baixa, rasando o chão com o focinho. O homem que assim se aproxima, vago entre as cordas de chuva, é o meu avô. Vem cansado, o velho. Arrasta consigo setenta anos de vida difícil, de privações, de ignorância. E no entanto é um homem sábio, calado, que só abre a a boca para dizer o indispensável. Fala tão pouco que todos nos calamos para o ouvir quando no rosto se lhe acende algo como uma luz de aviso. Tem uma maneira estranha de olhar para longe, mesmo se esse longe seja apenas a parede que tem na frente. A sua cara parece ter sido talhada a enxó, fixa mas expressiva, e os olhos, pequenos e agudos, brilham de vez em quando como se alguma coisa em que estivesse a pensar tivesse sido definitivamente compreendida. É um homem como tantos outros nesta terra, neste mundo, talvez um Einstein esmagado sob uma montanha de impossíveis, um filósofo, um grande escritor analfabeto. Alguma coisa seria que não pode ser nunca. Recordo aquelas noites mornas de Verão, quando dormíamos debaixo da figueira grande, ouço-o falar da vida que teve, da Estrada de Santiago que sobre as nossas cabeças resplandecia, do gado que criava, das histórias e lendas da sua infância distante. Adormecíamos tarde, bem enrolados nas mantas por causa do fresco da madrugada. Mas a imagem que não me larga nesta hora de melancolia é a do velho que avança sob a chuva, obstinado, silencioso, como quem cumpre um destino que nada poderá modificar. A não ser a morte. Este velho, que quase toco com a mão, não sabe como irá morrer. Ainda não sabe que poucos dias antes do seu último dia terá o pressentimento de que o fim chegou, e irá, de árvore em árvore do seu quintal, abraçar os troncos, despedir-se deles, das sombras amigas, dos frutos que não voltará a comer. Porque terá chegado a grande sombra, enquanto a memória não o ressuscitar no caminho alagado ou sob o côncavo do céu e a eterna interrogação dos astros. Que palavra dirá então?"

José Saramago, em "As Pequenas Memórias", 2006, Editora Caminho

sexta-feira, 28 de maio de 2010

mourinho, ronaldo...CRISE!?....

Depois de passar os olhos nos jornais via Internet, constatei que está tudo igual, é sempre mais crise, mais polémica, mais do mesmo!...Li que os portugueses deviam sentir-se orgulhosos de ter o treinador, mais bem pago do mundo (Mourinho)

e um dos jogadores melhores, do mundo, (Cristiano Ronaldo), ambos com carreiras cheias de sucesso. Está bem, pode ser, mas se isso fosse a cereja em cima de um bolo de outros motivos de orgulho, era o ideal! Na realidade Mourinho e Ronaldo passam-me completamente à margem, não representam nada num contexto grave que se vive, sem fim à vista.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

domingo, 23 de maio de 2010

A VERDADEIRA RELIGIÃO - MIGUEL DE UNAMUNO


Nunca me esquecerei do dia em que, dizendo-lhe «Mas, senhor padre Manuel, a verdade, a verdade, acima de tudo», ele, a tremer, sussurou-me ao ouvido - e isso apesar de estarmos sozinhos no meio do campo: - «A verdade? A verdade, Lázaro, é porventura uma coisa terrível, uma coisa intolerável, uma coisa mortal; as pessoas simples não conseguiriam viver com ela.» «E porque é que ma deixa vislumbrar agora aqui, como confissão?», perguntei-lhe. E ele respondeu: «Porque se não atormentar-me-ia tanto, tanto, que eu acabaria por gritá-lo no meio da praça, e isso nunca, nunca, nunca. Eu estou cá para fazer viver as almas dos meus paroquianos, para os fazer felizes, para fazer com que se sonhem imortais e não para os matar.
O que aqui faz falta é que eles vivam sãmente, que vivam em unanimidade de sentido, e com a verdade, com a minha verdade, não viveriam. Que vivam. E é isto que a Igreja faz, fazer com que vivam. Religião verdadeira? Todas as religiões são verdadeiras enquanto fazem viver espiritualmente os povos que as professam, enquanto os consolam de terem tido de nascer para morrer, e para cada povo a religião mais verdadeira é a sua, a que ele fez. E a minha? A minha é consolar-me em consolar os outros, embora o consolo que eu lhes dê não seja o meu.» Nunca esquecerei estas suas palavras.


Miguel de Unamuno, in 'São Manuel Bom, Mártir'


Filólogo, poeta, romancista e filósofo espanhol
Miguel de Unamuno
29/9/1864, Bilbao, Espanha31/12/1936, Salamanca, Espanha


MAIS SOBRE UNAMUNO AQUI

quinta-feira, 20 de maio de 2010

POEMA ERÓTICO DE DRUMMOND DE ANDRADE


'Satânico é meu pensamento a teu respeito,
e ardente é o meu desejode apertar-te em minha mão, numa sede de vingança incontestável
pelo que me fizeste ontem.
A noite era quente e calma e eu estava em minha cama, quando,
sorrateiramente, te aproximaste.
Encostaste o teu corpo sem roupa no
meu corpo nu, sem o mínimo pudor!
Percebendo minha aparente indiferença,
aconchegaste-te a mim e mordeste-me sem escrúpulos. Até nos mais íntimos lugares.
Eu adormeci.
Hoje quando acordei, procurei-te numa ânsia ardente, mas em vão.
Deixaste em meu corpo e no lençol
provas irrefutáveis do que entre nós ocorreu
durante a noite.
Esta noite recolho-me mais cedo,
para na mesma cama te esperar.
Quando chegares, quero te agarrar com avidez e força.
Quero te apertar com todas as forças de minhas mãos.
Só descansarei quando vir sair o sangue quente do teu corpo.
Só assim, livrar-me-ei de ti,
mosquito Filho da Puta! '

sexta-feira, 14 de maio de 2010

NORUEGA - UM CASO INTERESSANTE!...

Anda por aí em e-mail e decidi tranpôr para aqui, porque sendo assim, na Noruega é que eu gostava de viver!...

O dia de trabalho na Noruega começa cedo (às 8 horas) e acaba cedo (às 15.30). As mães e os pais noruegueses têm uma parte significativa dos seus dias para serem pais, para proporcionar aos filhos algo mais do que um serão de televisão ou videojogos. Têm um ano de licença de maternidade e nunca ouviram falar de despedimentos por gravidez."


"A riqueza que produzem nos seus trabalhos garante-lhes o maior nível salarial da Europa. Que é também, desculpem-me os menos sensíveis ao argumento, o mais igualitário. Todos descontam um IRS limpo e transparente que não é depois desbaratado em rotundas e estatuária kitsh, nem em auto-estradas (só têm 200 quilómetros dessas «alavancas de progresso»), nem em Expos e Euros."


"É tempo de os empresários portugueses constatarem que, na Noruega, a fuga ao fisco não é uma «vantagem competitiva». Ali, o cruzamento de dados «devassa» as contas bancárias, as apólices de seguros, as propriedades móveis e imóveis e as «ofertas» de património a familiares que, em Portugal, país de gentes inventivas, garantem anonimato aos crimes e «confundem» os poucos olhos que se dedicam ao combate à fraude económica."



"Mais do que os costumeiros «bons negócios», deviam os empresários portugueses pôr os olhos naquilo que a Noruega tem para nos ensinar. E, já agora, os políticos.
Numa crónica inspirada, o correspondente da TSF naquele país, afiança que os ministros não se medem pelas gravatas, nem pela alta cilindrada das suas frotas. Pelo contrário, andam de metro, e não se ofendem quando os tratam por tu. Aqui, cada ministério faz uso de dezenas de carros topo de gama, com vidros fumados para não dar lastro às ideias de transparência dos cidadãos. Os ministros portugueses fazem-se preceder de batedores motorizados, poluem o ambiente, dão maus exemplos e gastam a rodos o dinheiro que escasseia para assuntos verdadeiramente importantes."



"Mais: os noruegueses sabem que não se «projecta o nome do país» com despesismos faraónicos, basta ser-se sensato e fazer da gestão das contas públicas um exercício de ética e responsabilidade. Arafat e Rabin assinaram um tratado de paz em Oslo. E, que se saiba, não foi preciso desbaratarem milhões de contos para que o nome da capital norueguesa corresse mundo por uma boa causa."

Até os clubes de futebol noruegueses, que pedem meças aos seus congéneres lusos em competições internacionais, nunca precisaram de pagar aos seus jogadores 400 salários mínimos por mês para que estes joguem à bola.
Nas gélidas terras dos vikings conheci empresários portugueses que ali montaram negócios florescentes. Um deles, isolado numa ilha acima do círculo polar Árctico, deixava elogios rasgados à «social-democracia nórdica». Ao tempo para viver e à segurança social."
"Ali, naquele país, também há patos-bravos. Mas para os vermos precisamos de apontar binóculos para o céu. Não andam de jipe e óculos escuros. Não clamam por messias nem por prebendas. Não se queixam do «excessivo peso do Estado», para depois exigirem isenções e
subsídios."

quinta-feira, 13 de maio de 2010

E POR VEZES....


E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
.
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
.
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro da noite não os meses
lá no fundo dos copos encontramos
.
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos
-
David Mourão Ferreira

domingo, 9 de maio de 2010

TAUTOLOGIA

Termo usado para definir um dos vícios de linguagem. Consiste na repetição de uma ideia, de maneira viciada, com palavras diferentes, mas com o mesmo sentido.O exemplo clássico é o famoso 'subir para cima' ou o 'descer para baixo'. Mas há outros, como você pode ver na lista a seguir:

- elo de ligação
- acabamento final
- certeza absoluta
- quantia exacta
- nos dias 8, 9 e 10, inclusive
- juntamente com
- expressamente proibido
- em duas metades iguais
- sintomas indicativos
- há anos atrás
- vereador da cidade
- outra alternativa
- detalhes minuciosos
- a razão é porque
- anexo junto à carta
- de sua livre escolha
- todos foram unânimes
- conviver junto
- facto real
- encarar de frente
- multidão de pessoas
- amanhecer o dia
- criação nova
- retornar de novo
- empréstimo temporário
- surpresa inesperada
- escolha opcional
- planear antecipadamente
- abertura inaugural
- continua a permanecer
- a última versão definitiva
- possivelmente poderá ocorrer
- comparecer em pessoa
- gritar bem alto
- propriedade característica
- demasiadamente excessivo
- a seu critério pessoal
- exceder em muito .

Note que todas essas repetições são dispensáveis. Por exemplo, 'surpresa inesperada'. Existe alguma surpresa esperada? É óbvio que não...

PARECE QUE TODOS VAMOS CAINDO NESTA ARMADILHA!

sexta-feira, 7 de maio de 2010

CANÇÃO DA SAUDADE - ALMADA NEGREIROS

( Pintura de Almada Negreiros)
Se eu fosse cego amava toda a gente.
Não é por ti que dormes em meus braços que sinto amor. Eu amo a minha irmã gémea que nasceu sem vida, e amo-a a fantasiá-la viva na minha idade.
Tu, meu amor, que nome é o teu? Dize onde vives, dize onde moras, dize se vives ou se já nasceste.
Eu amo aquela mão branca dependurada da amurada da galé que partia em busca de outras galés perdidas em mares longuíssimos.
Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz ao fim do dia por entre as gentes apressadas.
Eu amo aquelas mulheres formosas que indiferentes passaram a meu lado e nunca mais os meus olhos pararam nelas.
Eu amo os cemitérios - as lajes são espessas vidraças transparentes, e eu vejo deitadas em leitos floridos virgens nuas, mulheres belas rindo-se para mim.
Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos. Eu amo a lua do lado que eu nunca a vi,
Se eu fosse cego amava toda a gente.
Almada Negreiros - In Orpheu – Revista Nº.1 (1915)

quarta-feira, 5 de maio de 2010