«Vocês sabem o que significa amar a humanidade? Significa apenas isto: estar satisfeito consigo mesmo. Quando alguém está satisfeito consigo mesmo, ama a humanidade. » Pirandello

Domingo, 4 de Março de 2012

JACQUES DERRIDA (1930-2004)


«Do ponto de vista, daquilo que nunca veio, continua-se à espera do regresso. O comunismo sempre foi e permanecerá espectral: ele será sempre por vir e distingue-se, como a própria democracia, de todo o presente que vive como plenitude da presença, como totalidade de uma presença efectivamente idêntica a si própria. As sociedades capitalistas podem sempre libertar um suspiro de alívio e dizer: o comunismo acabou a partir da derrocada do totalitarismo do século XX, e não só acabou como não teve lugar, não foi mais longe que um fantasma. Elas só podem denegar isto, o próprio indenegável: um fantasma nunca morre, ele é sempre «por vir e re-vir».
«No momento em que alguns ousam neo-evangelizar em nome de uma democracia liberal finalmente consumada como o ideal da história humana, é necessário dizer bem alto: nunca a violência, a desigualdade, a exclusão, a fome e portanto a opressão económica afectaram tantos seres humanos, na história da terra e da humanidade».
Jacques Derrida

Sexta-feira, 2 de Março de 2012

THE SHOW GO ONE


Nunca tive em boa conta os Óscares, escolha do grupo selecto da Academia, muitas falhas se foram registando, mas esta cerimónia tem sempre um lugar especial de apreço, porque é um espectáculo!
Este ano a colheita dos filmes escolhidos pela Academia para atribuição de Óscares foi fraca. Os mais badalados vêem-se bem, mas a história ficará por aí.
«O Artista» é um revivalismo, uma brincadeira a recordar outros tempos, com uma história fraca. «A Invenção de Hugo», é um Scorsese absolutamente atípico, um filme à parte do género que o celebrizou, ficará como uma fantasia de apologia ao cinema e a Georges Meliés, mas um filme menor!
«A Árvore da Vida», de Terence Mallick, gerou reacções opostas! «A Barreira Invisível», considerado e bem a sua obra-prima absoluta, perdeu o Óscar a favor de «Shakespeare Love»!
«Meia-Noite em Paris», foi um fenómeno de bilheteira, mas Woody Allen é «persona non» grata na Academia.
«Os Descendentes», é um filme muito fraco, com uma fórmula gasta, com personagens sem densidade, do realizador Alexander Payne, cujo melhor filme foi «As Confissões de Schmidt», que passou ao lado.
«Cavalo de Guerra», é um filme terno, infanto-juvenil, uma obra secundária de Spielberg.
«Extremamente Alto e Incrivelmente Perto», é o terceiro filme nomeado de Stephen Daldry, depois de «As Horas» e de «O Leitor», filmes muito bons. Estreou agora, ainda não vi, pouco sei do filme, tem a ver com o 11 de Setembro e puxa a lágrima!
«Money Ball» é um filme de baseball, passa ao lado da generalidade do público europeu, além disso é pouco empolgante, com uma dramaticidade desinteressante.
«As Serviçais» é um filme interessante e tem um enquadramento político que Hollywood tanto aprecia.


A única certeza e de todo consensual foi mesmo um Óscar de interpretação para Meryl Streep, uma das melhores artistas de todos os tempos.

Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2012

MC. ESCHER UM ARTISTA «SUI-GENERIS»!

"Eu não uso drogas, meus sonhos já são suficientemente horríveis."

"Eu não cresço. Dentro de mim está a criança da minha infância."

M C Escher ( 1898 - 1972) foi um artista realmente «sui-generis». Conhecido pelas suas xilogravuras e litografias e meios-tons, que tendem a representar construções impossíveis, preenchimento regular do plano, explorações do infinito e as metamorfoses - padrões geométricos entrecruzados que se transformam gradualmente para formas completamente diferentes.

Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012


"O homem tem duas faces: não pode amar ninguém, se não se amar a si próprio."
"O que é a felicidade além da simples harmonia entre o homem e a vida que ele leva?"
"Não há amor generoso senão aquele que se sabe ao mesmo tempo passageiro e singular."
"Não ser amado é falta de sorte, mas não amar é a própria infelicidade."
"O homem é a única criatura que se recusa a ser o que é."

ALBERT CAMUS

Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2012

CARNAVAL

Carnaval -  Giovanni Domenico Tiepolo

Carnaval é uma festa que se originou na Grécia em meados dos anos 600 a 520 a.C.. Através dessa festa os gregos realizavam seus cultos em agradecimento aos deuses pela fertilidade do solo.
O carnaval da Antiguidade era marcado por grandes festas, onde se comia, bebia e participava de alegres celebrações e busca incessante dos prazeres. O Carnaval prolongava-se por sete dias nas ruas, praças e casas da Antiga Roma. Todas as actividades e negócios eram suspensos neste período, os escravos ganhavam liberdade temporária para fazer o que em quisessem e as restrições morais eram relaxadas. As pessoas trocavam presentes, um rei era eleito por brincadeira e comandava o cortejo pelas ruas (Saturnalicius princeps) e as tradicionais fitas de lã que amarravam aos pés da estátua do deus Saturno eram retiradas, como se a cidade o convidasse para participar da folia.
No século XI, com a implantação da Semana Santa, pela Igreja Católica a festa carnavalesca, antecedia, a Quaresma, que era um longo período de privações. A palavra "carnaval" está, desse modo, relacionada com a ideia de deleite dos prazeres da carne marcado pela expressão "carnis valles", que, acabou por formar a palavra "carnaval", sendo que "carnis" em latim significa carne e "valles" significa prazeres.
Fonte: internet

Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2012

Lucian Freud


Os temas do extraordinário pintor, Lucian Freud (1922-2011) são geralmente de pessoas que passaram na sua vida; amigos, família, amores, crianças. Nas palavras do artista "o assunto do tema é autobiográfico, tudo sempre tem a ver com esperança e memória. a sensualidade e o envolvimento, mesmo."


Domingo, 12 de Fevereiro de 2012

CHARLES BAUDELAIRE – O POETA QUE ATRAVESSOU O ABISMO


A 5 de Julho de 1857, o crítico Gustave Bourdin escreve no «Le Figaro»: «Há momentos em que duvidamos do estado mental do Sr. Baudelaire, outras há em que não duvidamos mais – é a maior parte do tempo. O odioso roça o ignóbil; o repulsivo alia-se ao infecto (…) O livro é um hospital aberto a todas as demências do espírito, a toda a putrefacção do coração». Dias depois, um relatório da Direcção-Geral de Segurança chama a atenção do ministro do Interior para o conteúdo da obra, de uma «lubricidade revoltante». O juiz Ernest Pinard (o mesmo que seis meses antes condenara «Madame Bovary», de Flaubert) ordena a apreensão de «As Flores do Mal» por «ultraje à moral pública e aos bons costumes» e condena Baudelaire a uma multa de 300 francos. Victor Hugo escreve a Baudelaire elogiando a sua obra e dando-lhe os parabéns por ter sido condenado pela justiça de Napoleão III. Justiça que, no mínimo, denota grande dificuldade em entender metáforas. Ao comentar o julgamento de um dos seus poemas (À que é Demasiado Alegre) e em que fala em veneno, Baudelaire diz: « Os juízes julgaram descobrir um sentido a um tempo sanguinário e obsceno nas duas últimas estrofes. A gravidade da colectânea excluía semelhantes gracejos. Mas veneno equivalendo a «spleen» ou a melancolia era uma ideia muito simples para criminalistas. Que a sua interpretação sifilítica lhes fique na consciência!»
«As Flores do Mal» reaparecem quatro anos depois, agora acrescentadas de 35 poemas, mas amputadas dos seis erradicados pela justiça, que serão apenas reeditados em 1869. Quanto ao seu autor, terão de decorrer quase cem anos para ser publicamente reabilitado, o que acontece em 1949 quando o Supremo Tribunal de Justiça anula finalmente a sentença. A sua vida fica marcada pela marginalidade e a intenção de se candidatar à Academia Francesa, em 1861, é vista como mais uma provocação que nem os amigos ousam apoiar. Aos 46 anos, dez anos depois da tentativa de publicação de «As Flores do Mal», morre cheio de dívidas.

POETA MALDITO

Muito para além das questões que melindraram a «moral pública», Baudelaire marca uma viragem na história da poesia e da arte. Precursor do simbolismo, movimento que revolucionou a lírica e de que viriam a fazer parte Arthur Rimbaud, Paul Verlaine e Stéphane Mallarmé, é também o primeiro dos «poetas malditos». Decadentes, boémios e rebeldes à sociedade do seu tempo, romantizam a ideia de poeta que vêem como um ser único e inadaptado, recusando adaptar-se ao sistema sociocultural das maiorias. Como revela Fernando Pinto do Amaral, um dos tradutores portugueses da sua obra, Baudelaire é um dandy requintado, com a sua preguiça elegante, propenso à melancolia e com um desprezo irónico pela sociedade. Arrasta o seu ócio pelos jardins, cafés e boulevards e capta a vida urbana da cosmopolita Paris. É atraído pela multidão mas não se confunde com ela. É um aristocrata de espírito e gosto, que procura sentir-se diferente da massa burguesa, próspera mas desprovida de qualquer encanto ou heroísmo.
Baudelaire nutre o mais profundo desprezo pelos gestos inconsequentes com que os humanos preenchem o seu tempo e como reacção deixa-se seduzir pelo «mal», pela morte, por demónios, infernos e abismos. E se não cultiva o sofrimento, a dor serve-lhe pelo menos como estímulo criativo que é capaz de transformar em poesia.
Provocando uma revolução estética, afasta-se do romantismo e da sua eloquência, ornamentos e retórica. Pela primeira vez na história da poesia, introduz a dimensão histórica-social. Utilizando imagens profundamente sensoriais que nos provocam todos os sentidos, surgem velhos e cegos e pobres olhando a riqueza em cafés opulentos, a droga, o vinho ou as prostitutas. A cada esquina de Paris, imagens de sofrimento e de isolamento que ecoam em si próprio. O isolamento do homem urbano. Em 1865, Verlaine escreve que Baudelaire representa «o homem moderno na sua essência e em toda a sua complexidade física, psicológica e moral».
Observador e actor, fala no homem como viajante dentro de si mesmo e da sociedade, na procura de uma satisfação impossível que ilude o viajante. Ou na busca da plenitude através do amor e na sua impossibilidade, no êxtase ou no spleen, que é afinal a angústia existencial de eterna perda e exílio. Escreveu um dia: «Quando um refinado poema leva lágrimas aos olhos, essas lágrimas não são prova de intenso prazer estético, são antes de tudo um testemunho de um exilado no mundo imperfeito, e que gostaria de se apossar imediatamente, já sobre a terra, de um paraíso revelado».
Entre o mal e a beleza, a violência ou a «volúpia», Baudelaire explora assuntos tão escandalosos na época como o do amor entre mulheres.
Os temas de Baudelaire moldaram a poesia do século XX. T.S. Eliot considerou «As Flores do Mal» não apenas como o início do modernismo mas também como o seu corolário. E escreveu num ensaio: «Inventou uma nova espécie de nostalgia romântica», «Foi o primeiro artista do século XIX que soube dar expressão à beleza dos lugares de passagem, dos meios de transporte, das salas de espera».
Se a biografia ajuda o talento ou o talento molda uma biografia, é assunto que, séculos fora, entretém legiões de críticos. Baudelaire nasceu em Paris a 9 de Abril de 1821. O pai morreu quando Charles tinha seis anos e menos de um ano depois a mãe casa-se com um militar que mais tarde virá a ser embaixador e depois senador. O casamento da mãe com um «estranho» é um facto que Baudelaire parece nunca perdoar. Numa carta que lhe escreve poucos anos antes de morrer, acusa-a, ainda que me tom profundamente afectivo, de ter cometido uma grande imprudência para com ele. Enquanto devota à mãe uma intensa paixão, a relação com o padrasto vive sob o signo da incompatibilidade. Na realidade, o espectro do pai está sempre presente. Na mesma carta diz à mãe que está « só, sem amigos, sem mulher, sem cão e sem gato», sem alguém a quem lamentar-se. «Não tenho nada a não ser o retrato do meu pai, que sempre esteve mudo».
Após o casamento da mãe, Baudelaire frequenta colégios internos e em 1839 entra para a Faculdade de Direito, curso que nunca chegará a frequentar. Começa a viver numa pensão, leva uma vida boémia e convive com escritores mais velhos como Nerval ou Balzac. O padrasto, numa tentativa de salvar Charles às ruas de Paris, envia-o numa viagem à Índia onde Baudelaire nunca chegará. Na ilha de Reunião, consegue embarcar de volta a Paris. Quando faz 21 anos recebe a herança paterna, uma grande fortuna. Nessa altura conhece Jeanne Duval, prostituta e actriz, com quem mantém uma relação até ao fim da vida, apesar de repetidas separações e das grandes paixões que virá a experimentar. Vai viver para um palácio chamado Hotel Pimodan, relaciona-se com artistas e frequenta os encontros do Clube dos Haschischins. Ainda que prefira os efeitos do álcool para fugir da mediocridade existencial, virá a relatar as suas experiências com haxixe e ópio no seu livro «Paraísos Artificiais».
Em dois anos estafa metade da herança e numa atitude desesperada a mãe e o padrasto enveredam por uma acção judicial que o inibe de movimentar o seu património e passa a receber uma pensão mensal. A partir dai entra num processo de falência e dívidas que o acompanham até à morte. Publica recolhas de poemas, escreve crítica literária, de música e de pintura.
Foi na Bélgica que Baudelaire, durante uma visita à Igreja de St. Loup, perde a consciência. Este colapso é acompanhado por alterações cerebrais, particularmente afasia. Em 1867 morre de sífilis em Paris, sem a realização do projecto de uma edição final, como ele desejava, de "Flores do Mal, uma vida de trabalho.

A Morte dos Amantes

Tradução: Fernando Pinto Amaral

Teremos camas com os mais leves cheiros
E profundos divãs, quais mausoléus,
Além de estranhas flores nas prateleiras,
Para nós abertas em mais belos céus.

À porfia gastando os ardores últimos,
Os nossos corações, quais labaredas,
Reflectirão as suas chamas duplas
Nas nossas almas, dois espelhos gémeos.

Numa noite de rosa e de azul místico
Um só relâmpago iremos trocar,
Como o soluço de um adeus sem fim;

E o Anjo, mais tarde, abrindo as portas,
Alegre e fiel, virá reanimar
Os baços espelhos e as chamas mortas.

MAIS POEMAS EM: http://www.citador.pt/poemas/a/charles-baudelaire